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CAPÍTULO DÉCIMO SEGUNDO
O PAPEL DA IMPRENSA, A COMUNICAÇÃO SOCIAL E O CONVENCIMENTO GERAL
Toda essa sucessão de acontecimentos, supérfluos ou não, foram devidamente acompanhados do tambor da mídia e seus altissonantes ecos induziram a sociedade em geral à admissão da irretratabilidade e irreversibilidade do negócio. A sua vez, os gremistas em particular, diante de tantas encenações, imergiram num estado de encanto hipnótico na suposição de que o Projeto Arena, finalmente viera para redenção do clube de suas mazelas permanentes, apresentando-se como certos os seus espetaculares resultados anunciados. E o estádio ARENA em Humaitá passou a apresentar-se como um novo Xangri-lá, onde todos os conhecidos e históricos problemas de sobrevivência do clube estariam resolvidos. Tudo sob uma atmosfera de comodidade, segurança, modernidade e sofisticação. Bem aventurança, enfim.
A isso se agregou, em todo esse tempo, uma permanente presença nos veículos de comunicação social, bem como em encontros periódicos dos setores corporativos do clube ( grupos políticos , comissões do Conselho e etc.), de arauto especial, designado pela direção do Grêmio, voltado exclusivamente a incumbência ou tarefa ou ofício de ir traduzindo quase semanalmente para os incautos, neófitos e embasbacados leitores/assistentes dessas publicações e tertúlias, as maravilhas do empreendimento, tendo por evangelho estudos efetuados pela FGV na véspera de toda essa história, comprovando a excelência do negócio e suas inquestionáveis solidez e rentabilidade.
Evidentemente, róseo, o desenho passado.
Sem prejuízo de se conhecer o final sempre feliz ou as conclusões inevitavelmente satisfatórias desses estudos de viabilidade econômico-financeira, de todos os naipes, encomendados à dita Fundação por entidades públicas ou privadas do país interessadas na otimização desses resultados (transformam nabos em ambrosia), incumbe registrar que o Parecer respectivo passou, a partir de sua recepção e divulgação, a constituir-se um novo Talmud no mundo tricolor, dadas suas conclusões indiscutíveis, invulneráveis a quaisquer críticas, ou seja, empreendimento fadado a um inevitável sucesso. Todas as verdades nele embutidas seriam insusceptíveis de dúvidas ou tergiversações.
E o arauto travestido de Beato Salu. Isso, permanentemente afirmado, passou a inibir quaisquer manifestações de dúvida ou censura à grande parte dos interessados, a ponto de retirar aos eventuais analistas mais cuidadosos, ainda que respeitáveis personalidades ou notórios agentes técnicos de nosso meio, qualquer credibilidade, se contrários, aqui e ali, a algum ponto, mesmo isolado, do Projeto Arena. Daí que resultou dessa situação um aparente desinteresse em abordá-lo, tornando o empreendimento um fato consumado, algo em torno do acabado e induvidoso. Criou-se, por isso, nos raros renitentes e incrédulos, mais do que uma anemia crítica, a insegurança de suas convicções e o medo do ridículo das próprias contestações.
Além do mais, uma verdadeira tropa de choque formou-se ao redor do aludido porta voz, um verdadeiro Papa da Renascença, na defesa do empreendimento, formada e liderada por dirigentes de largo conhecimento público, bem com o trânsito livre e penetração nos veículos de comunicação, assistidos por uma imprensa ao mesmo tempo comprometida e omissa, seja para emprestar um caráter de absoluta consistência a toda e qualquer providência ou movimento efetuado pelos operadores do negócio, seja para anunciar a sua perfeita adequação ao avençado originalmente entre partes, seja para obstruir o livre trânsito de notícias desconfortáveis, via o manejo do silêncio sobre o que não interessa ou convém divulgar-se.
Tal situação se deu em grande parte devido (a) ao magnetismo que as coisas novas em geral exercem sobre a imaginação dos jovens, a grande massa ativa dos aficcionados do clube e o fervor quase mítico que, pela paixão, dedicam à entidade, acreditando a verdade situada nos exatos limites da vontade e da opinião de seus dirigentes, principalmente os mais evidenciados e notórios; (b) essa sacralização do clube tende despir os fatos de seus componentes científicos e concretos e , por conseqüência, tornarem-nos permeáveis a meras valorações opinativas, de pronta e incondicional credulidade; (c) uma complacência e leniência - quase cumplicidade - do Poder Público no gerenciamento das providências burocráticas necessárias à colimação do Projeto, asfaltando, atalhando e abreviando os trâmites burocráticos pertinentes, tudo com escopo da angariação de verbas públicas federais para obras circunstantes às do Projeto, um poderoso chamariz em razão de seu robusto agente, um clube centenário num país quinhentista, dotado de apelos massivos a um mercado quase universal; (d) uma imprensa totalmente destituida de jornalismo (espírito) investigativo, posto que exclusivamente voltada à esfera das superficialidades e efemeridades dos assuntos desportivos, orientação esta há muito consagrada em nossa terra pelas editorias respectivas, dada a significativa quantidade de recursos captados tradicionalmente na publicidade da atividade, tal como assim simploriamente tratada.
De modo que, nessa atmosfera, ingrata a esgrima de fatos e argumentos capazes de levantar dúvidas ou suspeitas acerca seja da viabilidade do negócio, seja sobre sua higidez jurídica, seja sobre suas efetivas perspectivas econômico-financeiras. Há muito, os raros interessados no rescaldo disso tudo aí, ingressaram num estado de laissez faire , restando a entidade, mais do que fragilizada, sucumbente diante dessa avalanche de acontecimentos, inusitados para seu destino de mera associação desportiva, com seu patrimônio, erguido por tantas gerações , submisso repentinamente a um negócio de risco avantajado sem que se possa discernir nem porquê e nem para quê exatamente. |
Projeto Arena - Dois Anos